Nutrição com propósito: o percurso, a visão e a marca pessoal de Sofia Tomás
Da compulsão alimentar à carreira em Ciências da Nutrição: nesta entrevista, falamos sobre como a alimentação reflete emoções, os mitos mais comuns nas consultas e o que ainda falta mudar na forma como Portugal valoriza a nutrição. Inclui dicas práticas de organização e rotina.
Há histórias que começam com um curso; e há outras que começam com uma transformação pessoal. Nesta entrevista, falamos com uma nutricionista que chegou à profissão pelo caminho mais íntimo: o de quem viveu uma relação difícil com a comida, atravessou a compulsão alimentar e percebeu, na prática, que a alimentação não é apenas um conjunto de escolhas à mesa, é também um reflexo do que sentimos, do que carregamos e do que precisamos.
Hoje, entre consultas, criação de conteúdo e uma comunidade digital cada vez mais exigente (e cheia de mitos), construiu uma abordagem assente em ciência, empatia e estratégias realistas, longe das soluções rápidas e das proibições que só alimentam ciclos de culpa. Falamos sobre o que a levou a criar uma marca pessoal tão própria, como desconstrói ideias enraizadas como “hidratos engordam” ou “comer à noite faz mal”, e porque acredita que nutrição é saúde.
Como começou a tua paixão pela nutrição? Houve algum momento ou experiência pessoal que te fez perceber que este era o teu caminho?
A minha decisão de seguir Ciências da Nutrição nasce de uma história pessoal. Em criança, vivi uma perda muito grande, o falecimento da minha irmã, e isso teve um impacto emocional que, durante a adolescência, se traduziu numa relação difícil com a comida. Desenvolvi compulsão alimentar como forma de procurar conforto e esse ciclo acabou por levar à obesidade. Foi nesse processo que percebi que a alimentação pode ser um reflexo do que sentimos, e não apenas do que comemos.
A transformação começou quando eu entendi que não precisava de “lutar contra a comida”, mas sim aprender a cuidar de mim através dela. Durante muito tempo, eu associei mudança a castigo e controlo, e isso só alimentava a compulsão. Quando passei a construir hábitos com consciência, respeitando o meu corpo e as minhas emoções, tudo começou a fazer sentido. A alimentação saudável tornou-se a base para a minha energia, para a minha confiança e para a minha liberdade, e foi aí que percebi que eu queria levar esta mudança também a outras pessoas.
Essa mudança pessoal levou-me a escolher o curso de Ciências da Nutrição. Quis compreender, com rigor científico, os mecanismos que ligam alimentação, metabolismo e comportamento — não apenas “quanto” se come, mas “porque” se come e como se mudam padrões de forma sustentável. Procurei formação para ter ferramentas práticas e fundamentadas que me permitissem apoiar pessoas que enfrentam compulsão alimentar e uma relação difícil com a comida, ajudando-as a recuperar controlo, estrutura e consistência, sem julgamento.
Vejo a alimentação como um pilar de saúde: influencia energia, composição corporal, sono, desempenho físico, saúde digestiva e metabólica, bem como prevenção de doença. Uma abordagem equilibrada e personalizada pode melhorar a qualidade de vida de forma muito concreta. É por isso que trabalho nesta área: para ajudar cada pessoa a construir hábitos realistas, com estratégia e educação alimentar, que se mantenham no tempo e tragam resultados, físicos e mentais, com autonomia e confiança.
Qual foi a maior motivação para transformar a nutrição em carreira e criar uma marca pessoal tão própria? Sempre sentiste que querias empreender nesta área?
A maior motivação para transformar a nutrição em carreira foi, sem dúvida, a minha história pessoal. Eu não cheguei a esta área por acaso nem apenas por interesse académico: foi um caminho que nasceu de viver na pele uma relação difícil com a comida, de perceber o impacto que a compulsão alimentar pode ter na saúde e na autoestima, e de experimentar o que muda quando existe conhecimento, estratégia e acompanhamento. Essa experiência deu-me um sentido de missão muito claro: ajudar outras pessoas a saírem do ciclo de dependência da comida e a construírem uma relação mais saudável e consistente com a alimentação.
E por ser uma motivação tão íntima e tão verdadeira, fez todo o sentido criar uma marca pessoal própria. Eu queria que o meu trabalho refletisse não só a ciência e o rigor, mas também a forma como eu vejo a nutrição: com empatia, sem julgamentos, focada em soluções práticas e resultados sustentáveis. Para mim, a marca é uma extensão do meu percurso e da minha forma de trabalhar, e isso torna a comunicação mais autêntica e a ligação com as pessoas mais humana.
Quanto a empreender, não foi algo que eu “sempre soube” desde o início, mas foi-se tornando uma consequência natural. À medida que fui consolidando a minha identidade profissional, percebi que queria ter liberdade para criar uma abordagem muito alinhada com os meus valores, com a minha linguagem e com o tipo de acompanhamento que eu acredito que realmente funciona. E, honestamente, aos meus olhos não haveria outra área tão relevante para mim: a nutrição juntou aquilo que eu vivi, aquilo que eu estudei e aquilo que eu quero devolver ao mundo. É o ponto onde a minha experiência pessoal e o meu propósito profissional se encontram.
Como tem sido equilibrar o trabalho das consultas com a criação de conteúdo e a gestão da comunidade digital? E de que forma isso influenciou a forma como comunicas sobre nutrição?
Equilibrar o trabalho das consultas com a criação de conteúdo e a gestão da comunidade digital tem sido, honestamente, um dos maiores desafios. Há fases em que senti que esta dinâmica me roubou tempo à vida pessoal e ao descanso, porque o digital não tem “hora de fecho” e a sensação de estar sempre disponível pode ser muito exigente. Desde que me tornei mãe, esse equilíbrio tornou-se ainda mais delicado, porque passei a ter de gerir prioridades com muito mais intenção e limites mais claros. Ainda assim, o gosto pelo que faço é um motor importante: quando há propósito, a motivação e a resiliência acabam por sustentar o trabalho, mesmo nos dias mais difíceis.
Essa realidade também moldou muito a forma como comunico sobre nutrição. Num mundo digital onde existe um volume enorme de informação e, muitas vezes, desinformação, sinto que a minha responsabilidade, enquanto nutricionista, é criar conteúdo real, útil e baseado em evidência científica, independentemente do número de likes ou da tendência do momento. Nem sempre é fácil “viralizar” com a verdade, porque a verdade é, por vezes, menos apelativa do que soluções rápidas ou mensagens extremadas. Mas acredito que é precisamente essa consistência que constrói confiança a longo prazo. Para mim, credibilidade ganha-se com clareza, rigor e honestidade, e é isso que procuro entregar à minha comunidade.
Existe algum mito ou ideia muito enraizada sobre alimentação que encontras repetidamente nas consultas e que tens tentado desconstruir ao longo da tua carreira?
Sim, há ideias que surgem repetidamente nas consultas e que tento desconstruir, porque muitas vezes estão na origem de frustração e de ciclos de restrição. Uma das mais comuns é a crença de que, para perder peso, é obrigatório cortar completamente os hidratos de carbono. Vejo muitas pessoas a associarem hidratos a “engordar”, quando na verdade o que determina resultados é o contexto: a quantidade total, a qualidade, a frequência e as combinações ao longo do dia. Hidratos como fruta, aveia, arroz, batata ou leguminosas podem perfeitamente fazer parte de um plano de perda de peso e, em muitos casos, até ajudam na saciedade, na energia e na consistência.
Outro mito muito enraizado é o de que comer à noite “engorda”. O corpo não funciona por um relógio que, a partir de certa hora, transforma automaticamente comida em gordura. O que costuma acontecer é que, quando o dia foi muito restritivo ou desorganizado, a noite torna-se o momento de compensação, e aí sim pode haver excesso, mais por comportamento e rotina do que por ser “de noite”. O trabalho, muitas vezes, passa por estruturar melhor as refeições do dia para que o jantar seja uma refeição normal e não o pico de fome e impulsividade.
E há ainda a tendência de eleger um alimento como “o vilão”, pão, banana, leite, como se fosse esse elemento isolado que impedisse o emagrecimento. Na prática, raramente é isso. Quando se cria medo de alimentos comuns, aumentam as restrições desnecessárias e, com elas, o risco de compulsão e de sensação de falhanço. O foco que tento trazer é mais maduro e realista: aprender a ajustar porções, escolher melhor dentro das opções disponíveis e construir um padrão alimentar sustentável, em vez de viver à base de proibições.
Sentes que Portugal ainda está a aprender a valorizar serviços de saúde privados, como a nutrição? Que desafios encontras no contacto com o público e o que achas que ainda falta mudar na mentalidade das pessoas?
Sinto que Portugal tem evoluído, mas ainda está num processo de aprender a valorizar, de forma consistente, serviços de saúde privados como a nutrição. Há cada vez mais procura e mais consciência, mas continua a existir a ideia de que “nutricionista é só para quem quer emagrecer” ou que basta seguir dicas na internet, obter planos nas plataformas de IA para resolver problemas complexos. E isso faz com que muitas pessoas só procurem ajuda quando já tentaram de tudo, estão frustradas, ou quando a situação é extrema e já estão em risco elevado para a saúde.
No contacto com o público, um dos maiores desafios é precisamente competir com a promessa do “rápido e fácil”. O digital trouxe acesso à informação, mas também normalizou soluções extremas e mensagens simplistas. Chegam muitas pessoas com expectativas pouco realistas, querer resultados rápidos, sem processo e, ao mesmo tempo, com muita culpa e medo em torno da comida. Outro desafio é a desvalorização do acompanhamento: como se um plano alimentar fosse um documento que se entrega e está feito, quando, na prática, o que muda resultados é o acompanhamento, o ajuste, a educação alimentar e a construção de hábitos adaptados à vida real.
A nível de mentalidade, acho que ainda falta mudar essencialmente duas coisas: primeiro, perceber que nutrição é saúde, não é um “luxo” nem uma vaidade. Segundo, entender que pagar por acompanhamento não é pagar por um menu, é investir em diagnóstico, estratégia, prevenção e melhoria de qualidade de vida (energia, sono, saúde digestiva, metabólica, desempenho físico, relação com a comida).
No fundo, acredito que estamos a caminhar nesse sentido, mas ainda é preciso reforçar literacia em saúde, valorizar profissionais credenciados e afastar a ideia de que a nutrição se resolve com “dicas” soltas. Quando as pessoas entendem isso, o acompanhamento deixa de ser visto como custo e passa a ser visto como o que realmente é: uma ferramenta de saúde a longo prazo.
Nos bastidores do teu trabalho, que estratégias ou rotinas desenvolveste para organizar melhor o teu dia e garantir que consegues dar atenção tanto aos pacientes como à criação de conteúdo?
Sempre tive alguns problemas com organização, então tive claramente de criar as minhas estratégias para conseguir conciliar consultas, conteúdo e comunidade. A primeira estratégia foi trabalhar com blocos de tempo: separo janelas específicas para consultas e outras, bem definidas, para criação de conteúdo e tarefas administrativas, responder a emails, faturação, dúvidas de pacientes... Ajuda-me a reduzir a sensação de estar sempre a saltar de um lado para o outro e a estar “meio presente” em tudo.
Outra rotina que me salvou foi planear a semana com antecedência. Normalmente defino temas e mensagens-chave para o conteúdo com base nas dúvidas mais frequentes das consultas e no que faz sentido para a minha comunidade.
Também fui aprendendo a proteger a energia: tenho limites claros para responder a mensagens e comentários, e uso respostas guardadas para perguntas repetidas, mantendo sempre um tom humano e personalizando sempre que possível. E, para garantir que consigo dar atenção real aos pacientes, tenho pequenas rotinas entre consultas, rever notas, preparar objetivos da consulta e fechar o raciocínio no fim, para que cada pessoa se sinta acompanhada e não seja “mais uma” no meio da correria.
No fundo, a chave tem sido aceitar que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo, mas dá para fazer bem quando existe planeamento, prioridades e consistência.
Que impacto teve a tua transição para uma agenda digital como o BUK na tua rotina de trabalho? Ajudou-te a ganhar mais tempo, foco ou clareza no dia a dia?
A transição para uma agenda digital teve um impacto muito prático na minha rotina, trazendo uma simplificação no dia a dia. O maior ganho foi tirar das minhas mãos a gestão “manual” das marcações, aquelas trocas intermináveis de mensagens para encontrar horários, porque o agendamento passa a poder ser feito diretamente pelo paciente, 24/7 e fica logo refletido na agenda em tempo real.
Também senti a gestão das consultas mais facilitada com os lembretes automáticos por SMS/e-mail, há menos faltas e menos necessidade de andar a confirmar tudo “manualmente”. Isso reduz interrupções e dá-me mais espaço para preparar consultas e estar presente com cada paciente.
E, por fim, ajudou-me a criar uma rotina mais “arrumada” porque centraliza informação, desde a agenda até à parte de organização/estatísticas e páginas de marcação personalizadas, o que também melhora a experiência do paciente e a perceção de profissionalismo.
Para quem está agora a começar na área da nutrição e quer construir uma marca autêntica, sólida e sustentável, que conselhos deixas? Há algo que gostarias de ter aprendido mais cedo?
Para quem está a começar, o primeiro conselho é: constrói a marca a partir de uma base real, valores, posicionamento e público-alvo, e não a partir do que está a dar “likes” naquele mês. Autenticidade não é expor tudo, é ser coerente: ter uma mensagem clara, uma forma própria de comunicar e um trabalho que confirma aquilo que prometes. E, na nutrição, essa solidez vem sempre do rigor: mantém-te atualizada, usa linguagem simples, mas não simplista, e rigor científico da tua mensagem.
Em vez de tentares ser “para toda a gente”, define em que és realmente boa, com quem gostas de trabalhar e que transformação queres entregar. Isso ajuda a criar conteúdo com direção e a atrair as pessoas certas. E usa as consultas como bússola: as dúvidas reais dos pacientes são, muitas vezes, os melhores temas para conteúdo educativo, com utilidade prática.
Também diria para respeitares o teu ritmo e a tua energia. No digital, é fácil entrares numa corrida de consistência a qualquer custo, mas sustentabilidade é conseguir manter presença sem te esgotares. Planeamento semanal, criação em blocos, limites para mensagens e expectativas realistas fazem diferença. Crescimento a longo prazo é mais “processo” do que “picos”.
O que eu gostava de ter aprendido mais cedo é que credibilidade vale mais do que viralidade. Muitas vezes, a verdade não é a mensagem mais chamativa e está tudo bem. Construir uma marca forte é escolher a consistência, mesmo quando parece que está a crescer devagar. Também gostava de ter entendido mais cedo que não precisamos de agradar a toda a gente: ter uma opinião técnica, um posicionamento e limites claros afasta alguns, mas aproxima quem realmente faz sentido. E, no fim, é isso que torna a marca autêntica, sólida e sustentável.
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